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Carta de Jean Vanier para seus amigos - Janeiro 2012

Queridos amigos,

Até que enfim! Aqui estou! A viagem da rua Louis Marillac, nº 31 para a rua d’Orléans ,nº 19 está concluída. O que significou mudança de móveis, livros e papeis, mais papeis e livros, minha cama, minha escova de dentes (mesmo que não me restem muitos dentes para escovar) e finalmente a minha pessoa. Já estou instalado em meu novo lar, junto ao lar “La Ferme” (onde sempre dou retiros). É um lugar charmoso… minha oficina tem uma grande janela de onde se vê a capela da Arca e um jardim com um viveiro para os pássaros. As aves chegarão e espero que não demorem a bicar as sementes, brigando e brincando entre si. Agora a viveiro está vazio.

Permanecerei contemplando suas cores – dos petirrojos, periquitos, pardais, pombas e todas as outras espécies quando perderem o medo. Quisera eu que já estivessem aqui, mas talvez me distraíssem da leitura ou de outras ocupações. Os pássaros são tão bonitos, tão rápidos, tão cheios de vida, às vezes um pouco barulhentos… eles cantam a glória de Deus e se regozijam com alegria. Que charmosa é a criação! Revela o gozo e a ilimitada criatividade de Deus. Entendo Francisco de Assis, que parecia ter um dom para se comunicar com as aves e atraí-las. Infelizmente, eu não tenho o mesmo dom. Os pássaros não se sentirão atraídos por mim, mas sim pelas sementes que lhes darei! Este ano o Natal para mim estará associado ao regozijo das aves alegrando-se diante do nascimento em Belém: os pássaros que cantam ao redor do presépio, junto com o boi e o burrinho, carneiros e provavelmente um cabrito.

Um novo nascimento. Sim, para mim realmente é um novo nascimento. 36 anos transcorridos em minha pequena casa onde conhecia todos os cantos: agora cheia de lembranças, de encontros silenciosos, de tempos de escuta de palavras verdadeiras e de Deus ditas por uma pessoa ou por outra, assim como palavras de sofrimento e preocupação… momentos de riso e alegria, sem esquecer os tempos de trabalho e criatividade. Especialmente, houve momentos de encontros com Jesus, de vida e de plenitude. Tempos também em que andei dando voltas ou me senti perdido, tempos de vazio e pobreza.

Não sabemos o que sucederá com um novo nascimento. Os pequenos ficam no ventre materno durante os nove meses. Em seguida, vem a surpresa. Para eles é também um tempo de aflição porque tiveram nove meses de vida protegida (no meu caso, 36 anos). O mesmo acontece comigo, viver um tempo de surpresa e aflição. Rezem para que eu possa acolher tudo com prazer.

Estou profundamente agradecido a Jean-Christophe e Christine que tiveram a ideia da mudança de casa. Eles deram o impulso para que o projeto se tornasse realidade. Obrigado também a Jean Lanier, Jean-Claude Mallet e à Fundação que comprou a casa Rameaux (fundada por Steve e Anne Newroth em 1966, antes de fundarem A Arca de Daybreak) e a transformou em uma casa muito charmosa. Durante alguns meses parte do edifício serviu como capela onde o Padre Thomas celebrou a missa dominical. Sim, a antiga casa Rameaux se transformou agora em uma capela muito acolhedora onde posso viver meus últimos anos no caminho de debilidade que conduz ao primeiro e definitivo encontro cara a cara e coração a coração com Deus. Estou agradecido também por Odile, que me acompanhou como responsável de comunidade de Arca em 1980, e que durante seu retiro cuidou de mim, da minha saude e de todo o resto. A casa foi transformada em um duplex – uma parte para Odile e outra para mim. Algumas vezes comerei aqui e outras continuarei me dirigindo ao lar Le Val para compartilhar as refeições com meus irmãos e irmãs, alguns dos quais conheço a mais de 40 anos.

Sinto-me pequeno diante desta nova etapa que começou com o Natal, quando celebramos o nascimento de Jesus, o nascimento de um Salvador que veio para nos livrar de nossos medos e egoísmos. Na minha cabeça, alma e coração há um verdadeiro desejo de renascer, para descansar em Deus. Vocês sabem o quanto me senti imprecionado e comovido com os escritos de Etty Hillesum, uma jovem judia assassinada em Auschwitz em 1943. Ela viveu os piores horrores. Sabia que tinha sido condenada à morte, com todas as pessoas de origem judaica, por Hitler e seus adeptos. “Vejo teu mundo diretamente nos olhos, meu Deus, não fujo da realidade refugiando-me em sonhos charmosos… e louvo obstinadamente tua criação apesar de tudo!”, escreve. Um pouco mais adiante, sim substituímos a palavra “vida” por “Deus”… “Quando deixo de me preocupar comigo… de repente estou descansando no sonho despido da vida e seus braços que me sustentam são ternos e protetores. E o batimento de seu coração, não posso descrevê-lo realmente – lento, tão regular, tão agradável, quase sufocado, mas o suficientemente forte para não cessar nunca sendo tão bom, tão misericordioso”.

Nosso mundo parece estar à beira de um abismo. Milhões de homens e mulheres passam fome, outros são prisioneiros do medo, vítimas de guerras, refugiados em campos, explorados pelas máfias, inocentes privados de liberdade. Sabemos tudo isso – os medos falam disso e então o silêncio se instala para nos incitar a esquecer os prantos, como se não existissem. O mundo passa também por uma grave crise financeira. Todos falam disso, mas realmente estamos tocados pelo que significa passar necessidade? Parece que a vida segue como se nada estivesse mal.

Um dia ouviremos sobre o barulho dos medos, o som de campanhias e os corais cantando “Paz, paz, paz na terra”. O Natal ocorre a cada dia e da escuridão surge uma pequena luz. Sim, a paz está nas nossas mãos, está nas minhas mãos. Posso realizar pequenos atos de ternura e amor para revelar aos “outros” sua beleza. Na Arca, assim como no Fé e Luz, não somos militantes de uma causa, mas sim testemunhos de esperança. Conhecemos o sorriso e os lindos olhos de Estelle; as pessoas dizem que ela tem síndrome de Down. Alguns prefeririam que a tivessem matado antes de nascer. Outros talvez quisessem que ela tivesse sido curada de sua síndrome de Down. Entretanto, ela está aqui com seus olhos brilhantes, revelando a presença de Deus. O mundo está ao avesso. O Deus da paz, tão suave, tão humilde e tão misericordioso, não está oculto nas estrelas sobre nossas cabeças ou em belas ideais de palestras inteligentes, mas sim no rosto de Estelle, o rosto de uma menina. Não se trata de curar ou eliminar a estas crianças, mas sim de criar lugares onde todas as pessoas, quaisquer que sejam suas fragilidades ou dificuldades, possam encontrar seu lugar na sociedade. Não é tanto uma questão de “curar” a Estelle, como de curar as atitudes de temor e rechaço que existem nas nossas sociedades. Trata-se de criar comunidades de acolhida onde todos possam crescer, desenvolver-se, estabelecer confiança em si mesmos e descobrir o significado profundo de suas vidas.

Jesus, carregando uma criança em seus braços, convida a seus discípulos a tornar-se criança para entrar no reino de Deus, o reino de amor. Devemos aprender a acolher esta ternura, estes olhos que assombram, esta abertura, esta confiança e este amor que são os dons das crianças. Jesus diz, “Os que acolhem uma criança em meu nome, acolhem a mim”. Acolher a Estelle é acolher a Deus. Este Deus de paz está oculto no mais pequeno e no mais deplorado. Não se trata de subir aos ceus, mas sim descermos, sim, descermos para encontrar.

“Estelle” e a pessoas que foram rechaçadas. A ideia é nos encontrarmos com eles, coração a coração, com sorrisos em momentos muito suves de comunhão; não mudá-los, mas sim acolhê-los abrindo um espaço em nossos corações.

Voltemos a minha nova capela que se chama casa de Lázaro. Lázaro era o irmão de Marta e Maria de Betânia, de quem fala João no seu evangelho (Capítulo 11). Suas irmãs o nomeiam quando enviam uma mensagem a Jesus – “Aquele a quem amas está enfermo”. “Aquele a quem amas” é seu nome. João, que escreveu o quarto evangelho, também se chama a si mesmo o “discípulo a quem Jesus amava”. A identidade de Lázaro, como a de João, é ser o “amigo de Jesus”, “amado por Jesus”. Não é esta a identidade de todos nós, sermos “amados por Deus”? Este é o significado de nossas vidas e da realização de nossas vidas. Hoje eu acredito que um dia o experimentarei em plenitude. Viver o Natal na casa de Lázaro é uma nova etapa para mim. É o começo do fim da minha vida. Vou aprender com Etty a descansar no seio de Deus e escutar o batimento do coração de Deus.

Quem veio aos meus retiros sobre o Evangelho de João sabe que existe uma possibilidade (para mim) de que Lázaro tivesse uma deficiência severa e que Jesus viesse com frequência descansar junto dele. A casa de Lázaro é um grande lugar para se tornar mais débil! O Natal é um tempo muito doce e suave, inclusive se os continentes no sul estão sob um ardente sol de verão. Na França está chovendo, o clima é benéfico e os momentos de sol são muito mais raros. O mundo está passando por tempos difíceis, mas também posso ver charmosas mostras de paz. Pessoas maravilhosas – à direita, à esquerda, acima e abaixo, de todas as religiões ou sem religião alguma – estão buscando maneiras de demonstrar paz, amor e acolhida a quem são diferentes. Nos brindam com seus sorrisos e estes sorrisos, às vezes, brotam do caos. O anúncio da paz está aqui nos nossos corações.

Que estejamos em comunhão uns com os outros nesta grande rede que existe ao redor da Arca e Fé e Luz, onde somos curados nas relações com pessoas que estão oprimidas, isoladas ou em dificuldades. É uma rede que se estende por todo o mundo, nos monastérios, nos corações dos Cristãos, Hindus, Muçulmanos, Judeus e em templos, mesquitas, igrejas, capelas e sinagogas e em homens e mulheres que não têm uma fé particular, mas acreditam nos seres humanos. É uma grande rede onde cada pessoa, segundo suas possibilidades, trabalha pela paz e é um instrumento de paz. Eu gostei do livro de Izzeldin Abuelaish, “Não vou odiar”. Este homem perdeu três de seus filhos, assassinados em Gaza por soldados israelitas. Devemos deixar todo rechaço pelos outros, para ver nestes “outros”, pessoas capazes de desenvolver amor e paz.

Rezem por mim, para que possa aprender a amar. Algumas das últimas palavras no diário de Etty foram, “Quero ser um bálsamo derramado em tantas feridas”.

Obrigado por seus cartões e suas cartas. Obrigado por tudo o que vocês são.

Que Deus bendiga a cada um de vocês e a todas as pessoas nesta terra neste Ano Novo.

Com amor,
Jean

P.S. Vocês ainda não leram o maravilhoso livro de Marie-Hélène Mathieu sobre a historia de Fé e Luz “Nunca mais sós” ? Saiu em francês em outubro. Em breve virão outras traduções, espero.

26/01/2012

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